Caro José Luís

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Antes de mais, espero que me perdoes a audácia de me dirigir a ti assim, com o desplante de quem trata um respeitado escritor da língua portuguesa pelos nomes próprios e, pior ainda, por tu – sendo que, pessoalmente, não te conheço de lado nenhum.

Mas não é pelo simples facto de não te conhecer pessoalmente que não temos alguns paralelos:  partilhamos o gosto pelo música mais pesadota, partilhamos progenitores nascidos no Alto Alentejo, és quase da mesma idade da minha irmã, é óbvio que ambos gostamos da escrita (embora, a nível de talento, estejamos em galáxias diferentes!) e, o que me faz escrever este artigo neste modesto  canto da blogoesfera, partilhamos o fascínio pela República Popular da Coreia, vulgo Coreia do Norte.

Comprei o teu livro no passado sábado,  dia 3, e acabei-o há mais ou menos cinco minutos. O que me leva ao primeiro reparo que te faço: porque raio é que uma viagem de 15 dias pela Coreia do Norte apenas dá para 236 páginas de livro? É que, ao longo destas 236 páginas, mostras-nos o país como todos nós sabemos que é, estamos carecas de saber, é um estado autoritário, opressivo, militarista ao extremo, baseado no culto da personalidade dos Kim (Il Sung, Jong Il e Jong Un) e na lavagem cerebral de 24 milhões de coreanos 24 horas por dia, 7 dias por semana, desde que nascem até ao momento em que morrem, para acreditar que os Kim, o ideário Juche e a Coreia do Norte são as melhores coisas do Mundo. E, sim, todos os coreanos acreditarão nisto.

Mas, que raio, estas tuas 236 páginas permitem, ao comum dos mortais com eu, apenas o mais breve dos vislumbres daquilo que é ser-se o norte-coreano comum – o chamado “average Joe”. E é isso que eu quero saber e conhecer!

Mostras-nos o coreano comum na sua adoração aos seus amados líderes (a Coreia do Norte é a única necrocracia do mundo – Kim Il Sung é presidente em pleno exercício de poderes, mesmo estando morto há 22 anos), novamente aquilo que todos já sabemos.
Mas, por breves instantes, mostras-nos a imagem do carinho que devotam às crianças – quer sejam filhos, netos, sobrinhos ou conhecidos.
Mostras-nos que, além dos grandes jogos de massas, os coreanos divertem-se, sempre em conjunto, e, tal como outro ser humano qualquer, quando bebem um copo a mais andam à porrada!
Mostras-nos, por vislumbres, a experiência única de ir ao norte do país, onde não entravam estrangeiros há 60 anos, e o espanto do coreano comum ao ver-vos, estrangeiros de olhos redondos. Deve ser uma coisa semelhante ao espanto da primeira pessoa que viu um rinoceronte.

Mostras-nos tanto, e ao mesmo tempo tão pouco.

E é fácil perceber porquê! Foste apanhado na malha do “turismo” norte-coreano, em que se exalta, como sempre, os amados líderes primeiro, o exército segundo, o povo coreano em terceiro e se rebaixa, ao máximo possível, os americanos e os japoneses enquanto os sul-coreanos são vistos com pena, uma espécie de fantoches do imperialismo americano.

Foste “forçado” a fazer a visita “oficial” e apenas viste os verdaeiros norte-coreanos pelo “rabinho do olho”, por vislumbres que, felizmente, nos trouxeste com este teu livro.

Da minha parte, quero agradecer-te. Em primeiro lugar quero agradecer-te a coragem de tomares a decisão de ires à Coreia do Norte, sem saber se voltarias a sair – sim, há um risco bastante elevado de entrar e não voltar a sair (mais que não seja porque somos americanos idiotas e decidimos roubar um cartaz de propaganda…). Em segundo lugar, a coragem de te afastares, assim, da tua vida – da tua família – sem saberes se alguma vez os voltarias a ver. A coragem de transgredires as regras e publicares um livro de uma viagem que estavas absolutamente proibido de documentar, por escrito, e cuja documentação, em fotografia, era estritamente controlada.

A Coreia do Norte é, e vai continuar a ser, um mistério. Um estado fechado sobre si mesmo, com uma população fechada sobre si mesma, ambos a viver uma utopia. Já não falamos de comunismo quando falamos deste país. Falamos de uma nação fanaticamente militarista. Cuja população vive iludida, com sonhos de grandeza que estão a anos-luz de alcançar. Ainda tenho esperança que a Coreia do Norte seja uma potência nuclear apenas no papel – que de alguma forma tenham conseguido simular os testes nucleares. Porque pensar em Kim Jong Un a decidir sobre se carrega ou não no botão que começa o holocausto nuclear dá-me calafrios. A Coreia do Norte é um regime mais xenófobo que o próprio regime nazi – já não existem referências a Marx e Lenine. Apenas aos líderes e à glória do povo coreano.

Como dizes, José Luís, não se trata de fazer a apologia das ditaduras, sejam de esquerda, direita, centro ou anarquistas. Trata-se de tentar levantar a pontinha do véu sobre um país que, de tão fechado, opressor e perigoso que é, se  torna fascinante.

E queria agradecer-te por isso, na vã hipótese de alguma vez de cruzares com este meu texto.

Obrigado, José Luís Peixoto, autor de “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte”.

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2 opiniões sobre “Caro José Luís”

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