Legislativas 2015 – Balanços e antevisões

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Neste, que é o último dia de campanha para as eleições legislativas 2015, proponho-me fazer uma espécie de balanço e, ao mesmo tempo, antevisão dos resultados dos votos dos portugueses no próximo Domingo, dia 4.

A campanha fica marcada, como não poderia deixar de ser, pela “propaganda do medo”, exarada pela coligação PàF e respectivos líderes, pelo apelo à mudança e ao voto do PS e pelos discursos, diametralmente opostos aos da coligação e PS, dos partidos mais à esquerda.

Outro aspecto que marcou, na minha opinião, positiva e negativamente, esta campanha foi o aparecimento de inúmeras novas forças políticas, os denominados pequenos partidos, na sua maioria de esquerda e, curiosamente, com origem em, à falta de melhor termo, “dissidentes” do Bloco de Esquerda. Ora bem, o aparecimento destas pequenas forças é positivo porque mostra que exista vontade de provar a todos os portugueses que existem alternativas aos chamados “partidos do arco da governação” ou aos partidos que, tradicionalmente, são eleitos para a Assembleia da República. Vieram juntar-se a forças como o PCTP-MRPP, o MPT, o PAN ou o PPM movimentos de cidadãos e novos partidos como o PDR, o PURP, o MJPP, o NC, o Livre – Tempo de Avançar e a coligação AGIR/MAS/PTP.
No caso particular destes dois últimos, embora as directas para escolha de candidatos promovidas pelo Livre tenham sido um exemplo, a campanha deste movimento em particular fica marcada, pela negativa, pelo descarado e constante “piscar de olho” do movimento de Ana Drago e Rui Tavares ao BE, à CDU e ao próprio PS no sentido de se formar um entendimento alargado à esquerda, como forma de derrotar as políticas da coligação. Pois bem, o Livre, formado por “dissidentes” do Bloco de Esquerda, não se importa de sacrificar essa dissidência, a vontade de “fazer diferente”, em troca de assentos na Assembleia da República? É isso que, na minha opinião, está aqui em causa.
Já no caso do AGIR/PTP/MAS, nada de positivo tenho a dizer. Joana Amaral Dias, de triste fama pelas fotos desprovidas de roupa na capa da revista de Cristina Ferreira e no Correio da Manhã, e por quem até nutria alguma respeito (até, no início da campanha, decidir abrir a boca e após o triste episódio que referi atrás) é de um populismo, de uma demagogia e de uma baixeza política que, à falta de melhor palavra, é nojenta. E em nada fica atrás do tonitruante e altamente popularucho discurso de António Marinho e Pinto ou da baixeza e demagogia irrevogável de Paulo Portas. Prova disso foi a absurda intervenção inicial que ouvi, desta dirigente, no debate organizado pela Antena 1 entre os pequenos partidos, e o constante tom emproado e de “todos me devem e ninguém me paga desta senhora”.

Quanto à campanha eleitoral, marcada pela habitual troca de galhardetes – ou seja, ataques pessoais –  entre os principais candidatos, fica ainda marcada pelas notícias que vieram a público nos últimos tempos – como o valor do défice de 2014 ou a “maquilhagem” aos números do BPN – que foram prontamente desvalorizadas como “ajustes estatísticos” ou “ajustes contabilísticos”.

Certo é que a coligação baseou toda a sua campanha nas premissas que esperávamos: “tirámos o país do resgate e da troika” (que, directa ou indirectamente, quer queiram admiti-lo ou não, trouxeram para cá), “tratámos da dívida” (que continua a aumentar – em 2011 estava a 97% do PIB hoje está em 130% do PIB), “criámos emprego” (os números do desemprego são, como todos sabemos, igualmente “maquihados”), “os sacrifícios são para combater o défice” (está em 7,2% o anos passado e, este ano, em 4,7% quando a meta é 3%), a venda a retalho (e muito obscura) de muitos sectores estratégicos do país, o desinvestimento na educação e saúde públicas e na Segurança Social, etc. E, claro, sem esquecer que “os outros” vão Syrizar o país e depois vão fazer o mal e vão “bazar”(de acordo com discurso de Paulo Portas). Foi uma campanha baseada, não na apresentação de medidas concretas, mas antes apoiada nos (inexistentes) resultados das políticas dos últimos 4 anos e na ameaça do “bicho papão” dos “outros” que vão dar cabo disto tudo (como se “isto tudo” não estivesse já estragado!).
Resumindo, além do incumprimento total das promessas eleitorais de 2011, estes 4 anos de governação foram marcados também pelo falhanço a toda a linha de todas as premissas que estão a invocar como argumentos para que os portugueses votem novamente nesta coligação de direita que mais não tem feito do que destruir o País. Com a conivência e silêncios “ensurdecedores” do Sr. Silva, que está demasiado entretido a contar notas em Belém e demasiado ocupado a pensar para estar presente nas comemorações do 5 de Outubro (afinal, como símbolo máximo da República, que sentido faz estar presente na celebração da implantação da mesma?). Depois temos ainda a baixeza política e na forma dos discursos dos líderes da coligação – foi a primeira vez que ouvi um líder político usar a expressão “baza” num discurso). Mas isso, em partidos de direita, já é mais que habitual. Embora seja, no mínimo, reprovável e, sobretudo, desprezível. Ah! E nunca esquecendo que, nas últimas semanas de governo, foram dados chamados bombons ao povo (eu prefiro chamar-lhes esmolas)! Benesses em impostos, acordos com sindicatos de enfermeiros, hipóteses de subscrições públicas para apoiar os lesados do BES em acções judiciais contra o banco (e o próprio estado!)… Tudo de bom!
Por último, a pronúncia da conjugação das palavras “Maioria” e “Absoluta” (que, juntas, são o sonho molhado de Pedro e Paulo) é, agora, absolutamente tabu. A não ser que seja o militante nº 1 do PSD, Pinto de Balsemão, a ter “tomates” para as mencionar em público.

O PS tem vindo a dar sistemáticos tiros nos pés nesta campanha. Desde a polémica dos cartazes, até ao discurso apaixonado de Carlos do Carmo que, quando o microfone o permitiu, disparou para todo o lado e mais algum dentro do partido (mencionando ainda que não era militante, nem tão pouco simpatizante, do PS), passando pela infelicidade de António Costa, que ficou sem voz no discurso final da campanha. As linhas principais do programa do PS, apesar de devidamente explicitadas e com contas feitas, não me convencem. E – é o único ponto em que sou forçado a concordar com a coligação – parece-me um caminho certo para novo desalinho nas contas do Estado. Positivo, sim, o apelo ao voto que permeou todo o discurso do período final da campanha do PS.

A campanha da CDU é mais do mesmo, com o meu estimado vizinho Jerónimo de Sousa a debitar a mesma cassete dos últimos 40 anos, nos mesmos locais de sempre e para o mesmo público de sempre. Apesar da renovação que, pelo menos a nível de grupo parlamente, aparenta ter-se operado no PCP, julgo que estaria na hora de se rever algumas partes fundamentais do seu discurso. Já o parceiro de coligação, o PEV, fora algumas aparições e soundbytes de Heloísa Apolónia, esteve praticamente ausente desta campanha. O que é uma pena, dado que a líder deste partido é, sem dúvida, uma das políticas e deputadas no activo que mais leva, ao plenário da Assembleia da República, os interesses reais do povo, sem nunca perder de vista os ideias ecologistas que movem o seu partido. Saliento ainda, à parte algumas “piadolas” de Jerónimo, a ausência de ataques pessoais aos líderes da coligação e ao líder do PS.

Por último, o Bloco de Esquerda, particularmente nas pessoas de Catarina Martins e de Mariana Mortágua, é o partido que me parece ter efectuado a campanha mais sólida. Restringindo, tal como a CDU, ou, até mesmo, eliminando os ataques pessoais, o Bloco levou a cabo uma campanha de verdadeiro esclarecimento político. O partido de Catarina Martins apelou ao voto, mas sempre no sentido da alternativa a políticas lesivas do interesse nacional e do povo português (no caso da coligação) ou sem credibilidade (no caso do PS). O Bloco conseguiu ser coerente, em campanha, com aquilo que defendeu na Assembleia da República. Moderou o discurso na necessidade da retirada de Portugal da Zona Euro (que embora, pessoalmente, considere necessária me parece ser uma proposta algo irrealista a curto/médio prazo) mas continua a insistir na necessidade de renegociação ou reestruturação da, impagável, dívida nacional. Pela coerência, correcção e elevação do discurso, creio que será o BE a sair “beneficiado”, em termos de resultado final, nestas eleições.

Em termos de cobertura mediática, foi mais do mesmo, com uma, nobre, excepção.
Não houve, nas televisões, debates alargados, com líderes de partidos com assento parlamentar a confrontar ideias com líderes de partidos sem representação parlamentar. A cobertura das televisões baseou-se, quase exclusivamente, nas acções de campanha dos partidos com representação parlamentar, com o ocasional, e brevíssimo, piscar de olho às acções dos pequenos partidos. Pelo contrário, a estação pública de rádio Antena 1 (ao contrário da estação pública de televisão), deu espaço a todas as forças políticas. Promovendo debates entre os partidos, embora falhando na ausência de um debate alargado, que incluísse, de facto, todas as forças políticas – teria alguma curiosidade em ouvir um debate entre Joana Amaral Dias e Paulo Portas, confesso!

Em termos de resultados, acreditando nas sondagens (que valem o que valem, como vimos em experiências recentes como as eleições gregas e britânicas), será eleito um governo minoritário (parlamentarmente) da coligação PàF – resultado que, tristemente, sempre previ, mas não me surpreende (dada a crónica falta de memória e o medo da diferença do eleitor português).
Dos vários cenários que se prevêem para a nomeação do próximo Governo da República, o mais provável será, a meu ver, a nomeação de um governo da coligação pelo Sr. Silva. Governo esse que dificilmente, ou nunca, verá as suas medidas aprovadas – aliás nem da aprovação de programa governativo deverá passar, porque será um governo com menos força parlamentar que todos os partidos da esquerda juntos, partidos de esquerda esses que, ao contrário do que sucedeu no primeiro governo Guterres, não deveriam alinhar nos entendimentos pontuais para deixar passar algumas medidas. A cumprir-se este cenário, este governo dificilmente terminaria a legislatura (se é que a chegaria a começar) promovendo a instabilidade política no país, com todas as consequências que acarretaria para o mesmo e para os cidadãos.
Embora seja inédito (e duvido muito que o Sr. Silva deixe passar), a haver um entendimento global à esquerda, poderíamos ter, pela primeira vez no Portugal democrático, um governo formado não pelos vencedores das eleições mas antes pelos partidos que, coligando-se após as eleições, teriam a maioria parlamentar. A crer pelo discurso do Sr. Silva, aquando do agendamento das eleições, estaria inclinado a apenas dar posse a um governo de maioria absoluta que, a cumprir-se este cenário, seria de esquerda. Creio que o PS veria os seus ânimos bastantes refreados pela participação de membros do BE e da CDU num Governo da República, E seria, certamente, uma excelente oportunidade para se encetarem reformas de fundo, a todos os níveis mas, especialmente, no sistema político e governativo nacional.
Um terceiro cenário possível que espero que não se cumpra (para o bem da minha renovada vontade de participação política, ou seja não votar em branco!) passa pelo entendimento, pós-eleitoral, da coligação PàF e do PS. Isso, sim, seria uma estocada na saúde da nossa democracia e prova de que a política nacional e os partidos do “arco da governação” apenas existem para se perpetuarem a eles próprios no poder…! Creio que seria a maior de todas as desilusões quando, após todas as “vociferações” uns contra os outros, os “partidos do poder” se juntassem, abdicando de todos os princípios que têm vindo a defender nos últimos dias para se agarrarem ao poder absoluto no Parlamento.

Por fim, fica o apelo. Não fiques em casa, no Domingo. Há futebol? Vai votar antes dos jogos! Há previsão de chuva? Nada que um guarda chuva não evite! É importante participar. E decidir o futuro. O teu, o meu e, principalmente, o do País.

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