Auschwitz, 70 anos depois do final do Holocausto

A grande mentira, colocada numa das entradas para um dos blocos de detenção
“O Trabalho Liberta” – A grande mentira, colocada numa das entradas para os blocos de detenção

Entre 1933 e 1945 a Alemanha Nazi de Hitler planeou, experimentou, inicialmente em pequena escala, e pôs em prática a chamada “Endlosung” – “A Solução Final”.

Um plano, para o genocídio daqueles que não correspondiam ao ideal ariano de pureza, de Raça Superior:
Os “Unerwunscht” (indesejados) – que incluiam, por exemplo, homossexuais, deficientes, comunistas ou doentes mentais.
As “Untermensch” (Sub-Humanos, uma tradução literal seria “Sub-Pessoas”) – que incluiam, por exemplo, ciganos, povos eslavos (do leste da Europa) ou negros.
E, como ficaria triste e indelevelmente célebre, todos os Judeus – quando digo “todos os Judeus”, quero dizer literalmente todos. De todo o Mundo. Adolf Hitler, ditador psicopata que foi, movido pelo preconceito, pelo ódio racial e irracional planeava exterminar os judeus e o judaísmo.

Uma civilização e religião milenares, eternamente alvo do preconceito mais idiota, via-se agora à beira do abismo, às mãos de um regime que, na pessoa do seu ditador e respectivos capangas (como Himmler, Goering, Goebbels ou Mengele, para citar apenas alguns) planeou meticulosamente o genocídio de, segundo estimativas conservadores, 6 milhões de pessoas (o número verdadeiro nunca será apurado ao certo, mas estimam-se de cerca de 9 milhões de vítimas).

Planeamento meticuloso, esse, que foi feito, literalmente uma pessoa, uma vida, de cada vez. Como se os seres humanos fossem gado, peças num jogo, recursos económicos e nada mais.

Hitler calculou o custo do transporte, “armazenamento”, alimentação (apenas a suficiente para manter viva a força de trabalho escravo, claro) e extermínio de milhões de pessoas. Com pormenores e requintes de malvadez inimagináveis e inenarráveis. Por exemplo, encomendou a uma empresa para desenhar um sistema que, de forma admiravelmente eficiente (não fosse horrenda), aproveitava o calor gerado nos fornos dos crematórios de Auschwitz para gerar electricidade ou aquecer água para os banhos dos prisioneiros, que não iam parar às câmaras de gás, e mais tarde se tornariam combustível para esses mesmos fornos. Hitler fez do genocídio em massa um negócio, o seu negócio.

O pormenor mais nefasto é que, além de se ter tornado uma máquina eficiente, a rede de campos de concentração nazi era uma fonte de lucro para o regime. E não apenas por usarem trabalho escravo. Nos campos de concentração, os prisioneiros eram despidos (as roupas e sapatos eram recondicionados e aproveitados – para uso pela Wehrmacht, por exemplo), todo e qualquer pertence pessoal era confiscado (ouro, jóias, metais preciosos, e outros de óbvio valor monetário, mas também dentaduras, próteses ortopédicas, óculos…), o cabelo era rapado (e usado para fabrico de vários produtos, desde colchões a redes para cabelo). Os prisioneiros mortos eram muitas vezes processados e usados para fabrico de sabonetes.

Só em Auschwitz-Birkenau – um campo de concentração que incluia uma rede de mais de 48 sub-campos – terão sido ceifadas mais de um milhão de vidas, de forma absolutamente arbitrária e bárbara. Entre trabalho forçado, condições sub-humanas, brutalidade dos guardas, câmaras de gás e doenças. O número é, também, uma estimativa. Até hoje, o Yad Vashem – organização israelita responsável pela documentação do Holocausto – ainda não conseguiu apurar o nome de todas as vítimas, trabalho que continua a realizar.
Não há sequer forma de contemplar o que seria a vida de um prisioneiro naquele campo. Provavelmente, a câmara de gás seria o destino mais misericordioso…

Foram amputadas incontáveis famílias, aldeias, cidades, gerações inteiras perdidas.

Foi há 70 anos que as tropas aliadas, na Europa, puseram um ponto final no pesadelo de incontáveis milhares de pessoas.

Auschwitz, abandonado pelos guardas, que levaram os prisioneiros numa das chamadas “Marchas da Morte”, deixando para trás 7 mil sobreviventes, demasiado fracos para trabalhar ou caminhar, porque não houve tempo para os matar a todos e colocar os corpos nos crematórios e piras a céu aberto, foi libertado pelas tropas soviéticas.

Hoje recordaram-se as vítimas deste genocídio, que todas as gerações desde então esperam que não se venha a repetir jamais.

Apenas subsistem 300 sobreviventes (há 10 anos eram 1500), e parecem ansiosos em deixar o seu testemunho. Deixando bem claro, em todas as suas histórias de terror e sofrimento, que este não é o futuro que desejam para os seus filhos e netos, nem tão pouco para o resto do mundo.

Fica apenas a nota: apesar do gesto nobre de libertação de campos que, há 70 anos, se repetiu por toda a Frente Leste às mãos do Exército Vermelho (das poucas coisas de bem que foram feitas pela URSS), o ignóbil Vladimir Putin recusou estar presente na cerimónia que hoje teve lugar em Auschwitz. Não sei o que este senhor tem na cabeça. Mas não parece augurar nada de bom.

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Um pensamento em “Auschwitz, 70 anos depois do final do Holocausto”

  1. Excelente post. Nunca deveremos esquecer algo tão profundamente horrendo e tão profundamente marcante que aconteceu nem tão assim há tanto tempo. Em termos de linha de tempo histórico é algo tão recente que deveria estar presente na mente colectiva da sociedade. Rapidamente o ser humano se esquece ou distorce as memórias e torna a repetir os mesmos erros. Ódio, intolerância e crime desta magnitude não pode voltar a acontecer. Cabe a nós relembrar e evitar que se repita. E é assustador ver traços desta mesquinhez em pessoas que estão em frente de governos de países que se dizem progressistas, cá na europa ou no resto do mundo. Olhos no futuro sim mas sem nunca esquecer o passado, por mais negro que seja.

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