“Sai da Tua Bolha!”

Encontram-se, trocam dois beijos (os primeiros, na face).
Ele oferece-lhe oito rosas, brancas. Ela sorri, meio encavacada, e esconde o rosto.
“Está fresquinho!” diz ela, para quebrar o gelo (da primeira vez que se encontram). São as primeiras palavras que ele ouve, na voz dela.

Depois de anos de confissões lidas nos blogs de ambos, horas de conversa virtual, de muita palavra trocada, muitas pontes descobertas entre os dois, ele não é capaz de mais do que “Fresquinho?! Está é calor!” – e sorri aquele sorriso nervoso e tímido que, muitas vezes, o define sem precisar de proferir uma palavra que seja. E, de imediato, se irrita consigo mesmo. “Tanta coisa para acabares a falar do tempo!” pensa consigo mesmo.

Vão até ao carro dela, enquanto conduz o silêncio é quase sepulcral. Trocam-se aquelas banalidades.
Ele vai olhando pela janela enquanto a cidade, que não conhece, se vai desfiando lá fora.

Chegam à “taberna”, prometida há semanas, sentam-se. Pedem. Enquanto beberricam – ela uma imperial; ele uma cola – vão trocando mais algumas banalidades. Sondando terreno. “O que é que fazes?”, “Correu bem a viagem?”, “Isto é giro… Lá onde eu venho também está na moda”.

Ela olha para ele e pergunta “Estás desconfortável?” Ele, que nem se apercebeu, está sentado de lado para ela no banco. De cara semi-tapada com as mãos. Vira-se de frente. Destapa-se. Respira fundo. Ganha confiança. Sente a timidez, a vergonha e um bocadinho d’ “O Medo”. “Não”, responde enquanto esboça um leve sorriso e olha, pela primeira vez, naqueles olhos, quase cor de mel. Apercebe-se que mal tinha olhado para ela. E o que tinha perdido até então. Engole em seco, volta a respirar fundo, e retoma a banalidade.

“Diz qualquer coisa!” insiste ela, por várias vezes, quando o apanha a olhar para ela sem dizer nada. “Não tenho jeitinho nenhum para conversas de ocasião…”, confessa ela. Ele anui. E continua calado.

Por fora.

Por dentro vai uma guerra entre algumas das coisas que lhe disse e a vontade que tem de ficar, simplesmente, a olhar aqueles olhos castanhos-esverdeados, a curva do pescoço, os caracóis, o beicinho que ela faz (sem querer).

Por vontade dele, sem proferir uma única palavra.

Enquanto vão comendo, falando e bebendo ela queixa-se do calor. “Estou a ficar impertinente”, diz ela. Ele ri-se. Já quando ela o dizia, naquelas conversas virtuais, se ria sozinho do lado de cá do computador. “Estou mal disposta…” diz ela, enquanto ele bebe o café e tratam da conta.

“Vamos?” pergunta ela. “Vamos!” diz ele. Metem-se, novamente, no carro e seguem rumo à cidade onde ela vive. Pelo caminho continua a mesma conversa banal. Pelo cantinho do olho vai lançando mais uns olhares e pensando “Fala. Fala com ela. Diz-lhe as coisas. Mostra-te.” Por fora, continua o mesmo silêncio. Que começa a ser confrangedor e pesado. “Os silêncios “confortáveis” ainda estão para vir” pensa ele “Fala. Diz qualquer coisa, de preferência bonita!”

Mas só se lembra do que falaram os dois naquelas conversas intermináveis até às tantas. E daquilo que disse. E quer cumprir. Daquilo que ela lhe pediu. E quer respeitar. E, ao mesmo tempo, não consegue esquecer a personalidade que irradia do banco do condutor. O brilho dos olhos dela entrou-lhe na cabeça para não mais sair. E o perfume dela? Deve ter sido esse o proverbial “último prego no caixão”…

Chegam. Vão passear pela cidade dela, que mostra, com orgulho incontido de quem adora a terra onde vive. Aos poucos a conversa vai mudando um bocadinho de tom, enquanto caminham, primeiro à luz berrante dos candeeiros e depois só com a luz difusa das estrelas. E ele confia, em qualquer coisa que nem sabe muito bem o que é. Mas continua sem lhe dizer o que quer, o que sente o que, lá dentro, sabe que precisa de dizer. “O Medo” está de volta. A vontade de não se precipitar. De ter calma. Pensar mais com a cabeça e não tanto com o coração.

Sentam-se num bar, ela com um Arroz Doce (cocktail com nome, ingredientes e sabor de sobremesa) ele com uma sidra. Desfiam mais uns dedos de conversa, menos banal. Ele senta-se, na cabeça dele, perigosamente perto dela. Para dar mais uma espiada naqueles olhos, que agora se escondem atrás dos óculos que colocou para conduzir (“Sou completamente míope!”).

Vão até casa. Enquanto se preparam para descansar, de um dia que foi atribulado para os dois, ele continua calado. Embasbacado. Olhando para ela. Quase nem dá por isso quando o gato dela lhe agarra a mão com as patas e lhe ferra uma enorme dentada na mão.

Dormem os dois. Nenhum descansa. Ele, pensando nela, a personalidade que irradia, aqueles olhos (que mesmo de noite parecem duas estrelas, cor de mel), a voz, o rosto, o perfume…

Ela… Pelo silêncio dele.

Despertam. Vão até à praia, apanhar Sol e Mar, naquele que parece ser o último dia do ano em que o podem fazer. Pelo caminho mais silêncio, só interrompido pela voz rouca do Tiago Bettencourt. Conversas sobre o tempo (?). Operadores de TV Cabo (?). Trabalho (?). Sobre tudo e nada. Menos o que ele deseja dizer-lhe e mostrar-lhe. “O Medo”. Aquele monstro que vem de dentro e se enrola à volta das ideias e da garganta e sufoca as palavras que tem para lhe dizer. Antes mesmo de saírem. Neste tempo todo, ela insiste com ele. Dá-lhe piparotes no ombro. Pede-lhe (implora quase) “Diz qualquer coisa!”

Praia. Areia, sol e mar. Mergulham ambos nas ondas de um mar calmo e cálido. Mais umas palavras de circunstância aqui e ali. “Para entrar, tem que ser logo de cabeça!” vangloria-se ele, antes de se atirar para os braços da onda que lá vem enquanto pensa, num conflito interno “Nem penses que te vais atirar de cabeça! Mas fala! Por amor de Deus, diz-lhe!” Vem à tona. Procura-a e encontra-a. Quando chega perto, ela afasta-se. Mais um sinal de… Qualquer coisa. “Diz qualquer coisa!”

Secam-se na toalha, lado a lado, ao Sol. Subrepticiamente, ele aproveita para a ver mais uma vez. Aqueles olhos… Pede-lhe para ver a tatuagem. Pega delicadamente no pulso dela enquanto olha para o lindo desenho. “Tem umas falhas” diz ela ” tenho que a ir retocar. Gostava de fazer mais três. Dizem que as tatuagens são viciantes, e são mesmo!”, sorri. Ele engole em seco depois do contacto, próximo, da pele dela na dele. Sorri para ela e confessa “Adorava fazer se não tivesse medo de agulhas!” e cala-se. Outra vez “O Medo”. “Diz qualquer coisa!”

Voltam os dois para casa. Almoçam. Ela não aguenta mais. “Estou a sentir-me muito desconfortável… Secalhar é melhor ires… Não te quero magoar… És muito fixe…” Ele, irritadíssimo consigo mesmo, quase não consegue conter-se mas lá diz “Se estás desconfortável, eu vou. Com muita pena minha… Estraguei tudo, desculpa…” Naqueles lindos olhos ele vê a tristeza quando ela diz “Não tens que pedir desculpa. És muito fechado. Lembras-me dele, nisso.” A vontade dele é levantar-se e abraçá-la. “O Medo”. O que ele prometeu e o que ela lhe disse e pediu. Resiste. Respira fundo e pede desculpa novamente.

Saem os dois para preparar a volta dele. Repetem o passeio de sexta-feira à noite. Sentam-se os dois numa esplanada e trocam mais algumas banalidades (viagens, estudos, telemóveis…). Ele olha mais algumas vezes para ela.

Ela acompanha-o até ao local onde ele vai embarcar. Cansada, senta-se num degrau. “Estás cansada ou aborrecida?” pergunta ele, acrescentando para si mesmo “Aborrecida comigo?”. “Cansada”, suspira ela. Ele dá-lhe uma festa no ombro. Ao de leve. O primeiro gesto óbvio de carinho em dois dias. Momentos antes de sair de perto dela. Antes de embarcar, um abraço. Ao de leve.

A caminho do destino, a 4 horas de distância, ela diz-lhe “Sai da tua bolha”. E ele está a tentar.

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